4.03.2017

ZÉ CRIATURA


Meu nome é Zé Criatura de Deus.
Moro de bom grado,
sem colchão e sem estrado
no varandado da gare vazia.

Sustento no peito
à moda de fieira
meus santos protetores
e guardo na algibeira
a vela e a pedra,
o fumo e a palha
o pão murcho
e um pouco de medo.

A fonte da praça é lenitivo
onde mendigo
me banho e me assanho,
e arrisco o olho esquerdo
pra morena que passa
com coxas em desabrigo.

3.06.2017

PLUMA


 Pluma irrequieta,
Ao feitio de resposta malcriada
Que não sossega, impaciente!
Carrega-me contigo
Na tarde de outono
Num vento indolente!

Leva-me para o infinito
Até eu me sentir
Em profundo azul transmutada.
Olvida o pássaro a quem pertenceste.
Faça-me esquecer o amor
A quem me mantive atada...

Ah! Pluma irrequieta!
Se te perderes na tarde do outono,
No vasto céu, ou numa alva açucena...
Deixa-me, por favor, de delicada sílfide,
A tua resposta mais amena...

2.02.2017


chove
simplesmente chove
uma chuva sem metáforas

12.20.2016

EVOLAR-SE




Resta-me viver
rodeada de livros velhos
e alguma roupa de estar.

Assim, deixo-me ir
como aquela lagoa
formada pela maré alta,
que nunca retorna ao mar...

Alimento-me de um pouco de poesia
e da espera
que às vezes me faz largar a leitura
e encostar o rosto em janelas
só para adiar o branco do sol
que insiste em me evaporar. 

10.03.2016

SOMBREAÇÃO



Abriste a porta e te esgueiraste
para a noite.
Chovia e não havia luar,
mas, a luz dos lampiões umedecidos
deixaram-me ver
tu te transformares
numa sombra lenta
para nunca mais voltar.

Ficou em mim
essa respiração entrecortada e tardia
que trago até hoje
a cada chuva fina,
a cada lampião molhado
a cada sombra sibilina
de pássaro ou de cântaro,
não importa,
mas sempre carregada de melancolia. 

9.23.2016

VISÃO

A noite empreende
longa viagem
até o amanhecer.
Procuro-te entre os que partem
de sobretudo, chapéu
e saxofone na mão.
Mas, tua presença
só é visível na saudade
e na fotografia.

Apelo para a noite,
(num assomo de ilusão)
que ela me leve até os sonhos.
A noite, indiferente,
apita e parte
deixando-me só,
na estação vazia. 

7.07.2016

SONETO DE REMISSÃO


E se eu chegasse assim tão de repente,
Trazida no vento qual folha morta
E entrasse ligeira pela tua porta
Vinda do outono com pressa de ausente?

E se eu abrisse teu sonho recôndito,
Deixasse verter a mágoa e a dor;
Quem sabe liberto do desamor
Tu me acolherias com mesmo frêmito?

Com canto sereno e plumas azuis,
Eu chegaria vestida de pássaro
O bico suave de doce romã

E tentaria fazer-te feliz
Com hinos de amor e feixes de abraços
Assim de repente, nesta manhã

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