6.13.2017

INSINUANTE




Assombra-me um poema silencioso
que, (como envelope sem endereço)
vem à porta do pensamento
e implora asilo.

Insinua-se na ponta do lápis
e a palavra,
(seu devir),
vacila um pouco prosa,
um pouco rosa,
sutil e reticente
como a sarça que arde
sem se consumir.

6.03.2017

DESASSOSSEGO


Em frente à casa velha
de porta e janelas faceando a rua
um velho fumega seu palheiro.
Hospitaleiro e sem alarde,
soa na capela pacífica
o sino da tarde.

Em alguma estação distante,
à esta hora, um trem retorna
e traz o viajante
para os braços da amada.
No telhado corado
à luz da tardinha,
um sabiá arremata seu canto.

Morrem longe
o rumor alegre de fim de feira
e o murmúrio afanoso
do lavrador na aldeia.

Tudo é lida e vagar,
repouso e fadiga,
lanço de escada,
patamar...

Por que então, ó meu Deus,
não dorme nunca em meu peito,
esta alma desassossegada? 

5.25.2017

OPÇÃO


São vinte anos de metáforas...
Diáspora consciente
para redutos de quimera
onde o silêncio impera
e o culto é único
a um deus de mentira. 

5.19.2017

SOMBREAÇÃO


Abriste a porta e te esgueiraste
para a noite.
Chovia e não havia luar,
mas, a luz dos lampiões umedecidos
deixaram-me ver
tu te transformares
numa sombra lenta
para nunca mais voltar.

Ficou em mim
essa respiração entrecortada e tardia
que trago até hoje
a cada chuva fina,
a cada lampião molhado
a cada sombra sibilina
de pássaro ou de cântaro,
não importa,
mas sempre carregada de melancolia. 

4.03.2017

ZÉ CRIATURA


Meu nome é Zé Criatura de Deus.
Moro de bom grado,
sem colchão e sem estrado
no varandado da gare vazia.

Sustento no peito
à moda de fieira
meus santos protetores
e guardo na algibeira
a vela e a pedra,
o fumo e a palha
o pão murcho
e um pouco de medo.

A fonte da praça é lenitivo
onde mendigo
me banho e me assanho,
e arrisco o olho esquerdo
pra morena que passa
com coxas em desabrigo.

3.06.2017

PLUMA


 Pluma irrequieta,
Ao feitio de resposta malcriada
Que não sossega, impaciente!
Carrega-me contigo
Na tarde de outono
Num vento indolente!

Leva-me para o infinito
Até eu me sentir
Em profundo azul transmutada.
Olvida o pássaro a quem pertenceste.
Faça-me esquecer o amor
A quem me mantive atada...

Ah! Pluma irrequieta!
Se te perderes na tarde do outono,
No vasto céu, ou numa alva açucena...
Deixa-me, por favor, de delicada sílfide,
A tua resposta mais amena...

2.02.2017


chove
simplesmente chove
uma chuva sem metáforas

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