Pousa num ramo um sopro de agonia dos que morrem (sem saber) em nosso coração. Suspira a noite no vento vadio. Amados mortos: tentais dizer o quanto amais ainda?
Veleiro ao cais amarrado em vago balouço, dorme? Não dorme. Sonha, acordado, que vai pelo mar enorme, pelo mar ilimitado.
Se acaso me objetardes que veleiro não é gente e, assim, não sonha nem sente, sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria de falar-vos do homem triste mas de olhar grave e profundo que, à amargura acorrentado sonha, no entanto, que vive toda a beleza do mundo?
Melhor é dizer: Veleiro... veleiro ao cais amarrado sob as límpidas estrelas. Vela branca é uma alma trêmula, sobretudo se cai sombra do alto abismo constelado. Veleiro, sim, que não dorme mas na silente penumbra sonha, ao balouço, acordado que vai pelo mar enorme, pelo mar ilimitado.
Meu canto é fechado. Eu canto pra dentro pra alegrar a alma, (essa moça abatumada), que de tanto chorar poesia e pensar fotografando, não cabe mais dentro de mim.
Desprende-se o gesto que se cumpre aos poucos, com o qual hei de acenar-te o adeus. Ergo a mão da despedida como se empunhasse o punhal que irá desferir o golpe. Há em mim aquele instante metafísico que prende o braço. Como partir se há muito te espero? Como ficar, se o ocaso do amor se instalou e seu entardecer já se despede da luz? Ah, forma dúbia que inventei para morrer lentamente.
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