Tu que caminhas no escuro e levas suspensa na mão turva lâmpada de óleo, cuida para que na curva não te falte o brilho...
Previne-te com suprimentos e na linha de chegada toma das sobras do que foi luz,
unge teu corpo gelado na catarse dos teus pecados, unta pedras e nuvens e funde-as em cristal...
Repousa depois na silente poesia que a escuridão te contempla e bebe do suor do teu rosto, (sedimento puro e transparente) misto de medo e purificação...
escrevo-te a sentir tudo isto e num instante de maior lucidez poderia ser o rio as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo e deambular trémulo com as aves ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios poderia imitar aquele pastor ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade
habito neste país de água por engano são-me necessárias imagens radiografias de ossos rostos desfocados mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos repara nada mais possuo a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã repara como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Os direitos autorais dos textos publicados em itálico são de autoria de Felice Bauer e estão reservados nos termos da legislação vigente. Permite-se a reprodução desde que sejam citadas a autora e a fonte.