Vou voltar por aquela rua para ouvir as avulsas melodias. Hei de recolher as falsas notas percutidas no silêncio e compor com elas a canção do esquecimento.
Um quarto de seis faces testemunhava a solidão. Do aparelho de som a música ritmada apunhalava as paredes. A luz baça pendida do teto deitava cor de névoa na poeira dos vãos.
Há muito não dormias. Tinhas sede e gemias tomado pela vasca de alcançar o inatingível.
Nenhum vento perturbava o ávido trabalho de tuas mãos.
O que se passou? Uma desolação; você quer mas não pode. Contudo, a poesia é maior que o poeta, e, quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez.
Tantas formas revestes, e nenhuma me satisfaz! Vens às vezes no amor, e quase te acredito. Mas todo o amor é um grito desesperado que apenas ouve o eco... Peco por absurdo humano: quero não sei que cálice profano cheio de um vinho herético e sagrado.
Quando pensava, era em forma de rimas, versos e metáforas. Quando rezava, preferia os mistérios dolorosos e maravilhava-se com a agonia do horto, o flagelo da cruz e a coroa de espinhos. Quando amava, tinha predileção pela nostalgia, pela desesperança, pela saudade e pelo abandono. Um dia a morte bateu à sua porta e êle a recebeu com desprezo. Amava a vida e era extremamente feliz.
Cedo ou tarde devias saber que é sempre tarde que se nasce, que é sempre cedo que se morre. E devias saber também que a nenhuma árvore é lícito escolher o ramo onde as aves fazem ninho e as flores procriam.
para as outras meninas o vapor da chaleira era prenúncio de chá de erva-cidreira para mim era sinal de navio em cais do porto era aurora desgarrada era vontade de partir
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