Era uma moça com pureza de água de mina. No primeiro beijo, lá pelas bandas do brejo, sentiu roçar no baixo-ventre a haste contundente do desejo, e alimentou por nove luas a filha do medo que não ousou vingar.
Tinhas o nome de flor quando partiste. Trazias entranhado nas pétalas, todo o perfume das noites em que semeamos ternura.
Do pistilo dourado de teus dedos, a brisa conduziu o pólen para a terra arada pelo tempo.
E eu que esperava a colheita da volta, amarguei com os espinhos da saudade. Por certo, em doloroso processo de enxertia, tenhas estendido teus ramos na areia molhada e uma estrela do mar é hoje o teu novo jeito de sonhar.
Brota a caliandra da terra escura. De dentro do par de rebentos, outro par, tímido, se refilha, como se não existisse tempo, como se a vida fosse eterna vigília.
Pluma irrequieta, ao feitio de resposta malcriada que não sossega, impaciente, carrega-me contigo na tarde de outono num vento indolente!
Leva-me para o infinito até eu me sentir em profundo azul transmutada. Olvida o pássaro a quem pertenceste. faça-me esquecer o amor a quem me mantive atada.
Ah! Pluma irrequieta! Se te perderes na tarde do outono, no vasto céu, ou numa alva açucena, deixa-me, por favor, de delicada sílfide, a tua resposta mais amena.
O vento de agosto desprendia fuligem das telhas, que caia no chão de tijolo, coberto de rubra cera. A um canto da cozinha, o fogão reinava absoluto, pleno da luz do fogo na sua alma enfumaçada. Na pele, a cobertura de negror de luto.
A lenha já queimada jazia em carvão incandescente, sem chama, brasa apenas, e estalava, estalava. Um cinzeiro farto e aconchegante as abrigava. O tacho na chapa quente segurava a colher de pau, cansada de mexer e remexer o doce de goiaba.
Havia ainda o café no bule, o leite requentado. O aroma da carne assada impregnava o casarão. Do teto, em cordões, pendia a carne de porco, por meses e meses, em demorada defumação.
Era cálida a tarde de inverno naquela cozinha. Era silencioso o descansar do fermento na massa do pão. Era de silêncio também a espera no meu coração, pelo amor que se consumia sem chama, como o carvão.
Os direitos autorais dos textos publicados em itálico são de autoria de Felice Bauer e estão reservados nos termos da legislação vigente. Permite-se a reprodução desde que sejam citadas a autora e a fonte.