Interrogo-me sobre esta melancolia do entardecer, como se já estivesse assente que todo princípio de noite é de dor de parto e choro de nascente.
Interrogo-me sobre este céu enfermiço que se tinge de rosa de fim de ocaso e do cinza da treva que se aproxima, cor indecisa, sem nome e sem poesia.
Interrogo-me por fim, sobre a languidez de punhal em riste destes acordes tristes com que Gounod compôs a Ave Maria e que cravam em minha alma de dúvidas o gume de tristeza e da nostalgia.
Oh noite, que devora o homem com gula e sofreguidão, silício na carne fraca, a consumir polpa e osso; seu olhos são brilhantes, e sua boca (no entardecer) é coalhada de sangue e desgosto.
Oh noite que devora o homem e como antepasto, corrompe sua alma a semear pecado e vício... Se eu tivesse que lhe dar um nome, este nome seria suplício.
Tu me deste a mão, dois degraus acima e pediste: Vem, subamos até onde moram as estrelas ! O toque de nossos dedos nos fez únicos: tu o rei, eu a majestade, tu a vontade de partir eu a saudade... Tu a correnteza, eu o murmurar das águas. Tu o sorriso, eu o porta-retratos. Subamos! Unge-me com teu sal e tua essência, até que sejamos um só, fotografia singular: tu o impulso, eu o flanar de asas, tu a luz que norteia, eu a Via Láctea.
O que me põe aqui em meio a um jardim que não floresce, ou à frente da semente que não vinga? O que me faz perder as horas, indiferente, como se soubesse do fim à míngua? Por que me dói deixar o caos, como ao cais o navio que singra leve? Por que essa permanência no desconforto, que me põe atenta ao inexistente? Talvez ainda espere...
Os direitos autorais dos textos publicados em itálico são de autoria de Felice Bauer e estão reservados nos termos da legislação vigente. Permite-se a reprodução desde que sejam citadas a autora e a fonte.