Não sei há quanto te espero mas eis que chegas como a febre na madrugada, a surpreender o corpo frio com suores e estertores de enfermidade e possessão.
Despertas-me com o açúcar de quem beija e com o sal de quem navega.
És alucinação. Doença incurável na cicatriz que de dor lateja. És chama à mingua na mecha que ainda fumega.
Tu me deste a mão, dois degraus acima e pediste: Vem, subamos até onde moram as estrelas ! O toque de nossos dedos nos fez únicos: tu o rei, eu a majestade, tu a vontade de partir eu a saudade... Tu a correnteza, eu o murmurar das águas. Tu o sorriso, eu o porta-retratos. Subamos! Unge-me com teu sal e tua essência, até que sejamos um só, fotografia singular: tu o impulso, eu o flanar de asas, tu a luz que norteia, eu a Via Láctea.
(m)ÁGUAS Deixa o rio correr limitado pelas margens beijado pelas vargens no desconforto da descida, sem desvio, afluente ou porto, e lembra sempre que mãos atadas não impedem a despedida.
Deixa o rio correr e não esqueças que mágoa é apenas rima de água e não subsiste jamais onde o leito é ancho e o peito amplo de perdão.
O que me põe aqui em meio a um jardim que não floresce, ou à frente da semente que não vinga? O que me faz perder as horas, indiferente, como se soubesse do fim à míngua? Por que me dói deixar o caos, como ao cais o navio que singra leve? Por que essa permanência no desconforto, que me põe atenta ao inexistente? Talvez ainda espere...
Erguem-se os muros mudos e frios. Ao vento rangem os cataventos. Sinto um aperto no peito vindo do apito dos trens e do dobre dos sinos. A saudade confinada põe a face no tempo e corre livre como pássaros e meninos.
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