Tudo repete a mesma canção triste. O mar insiste em acordes de ondas e conchas estilhaçadas pelos rochedos. O vento, em pautas de pensamento, dedilha nas folhas pausas e segredos. A mesma gaivota planando no cinza do inconformismo. A mesma janela de parapeito baixo, insistente convite para o abismo.
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.
Todas as palavras se perderam no hiato que se formou entre o beijo da despedida e a corrosiva saudade que se instalou, como se a ponte que ligava minhas margens às tuas ruísse inesperadamente. O rio de sonhos, antes navegável, é hoje vau de entulhos, escuro veio de espera e saudade, onde os peixes se soltam na correnteza, sem empenho de chegar.
As mãos pressentem a leveza rubra do lume repetem gestos semelhantes a corolas de flores voos de pássaro ferido no marulho da alba ou ficam assim azuis queimadas pela secular idade desta luz encalhada como um barco nos confins do olhar ergues de novo as cansadas e sábias mãos tocas o vazio de muitos dias sem desejo e o amargor húmido das noites e tanta ignorância tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva quase nada
Saíste das brumas com vestes de valete. Trazias na valise, bandeiras rasgadas e broqueis amassados, sobras dos combates travados na escuridão. Vieste ferido na língua e amputado numa das mãos. As lutas impuseram freios nas tuas palavras, e toldos na tua escrita. Seu condado ficou limitado entre o catre e a solidão. Mas, carregavas na alma a vitória invisível feita de poesia e de amor à vida. Hoje, nesta tarde invernal, partes para tua última batalha, de antemão, cheia de glória. Descansa em paz, meu amigo D´Eu.
Tinhas o nome de flor quando partiste. Trazias entranhado nas pétalas, todo o perfume das noites em que semeamos ternura. Do pistilo dourado de teus dedos, a brisa conduziu o pólen para a terra arada pelo tempo. E eu que esperava a colheita da volta, amarguei com os espinhos da saudade. Por certo, em doloroso processo de enxertia, tenhas estendido teus ramos na areia molhada e uma estrela do mar é hoje o teu novo jeito de sonhar.
Quando é que eu vi pela última vez Os olhos verdes redondos e os corpos longos vacilantes Dos leopardos escuros da lua? Todas as bruxas selvagens, aquelas senhoras muito nobres, Por todas as suas vassouras e as suas lágrimas, Suas lágrimas de raiva, fugiram. Os santos centauros das colinas desapareceram; Não tenho nada para além do amargado sol; Banida mãe lua heróica e desaparecida, E agora que cheguei aos cinquenta anos Tenho que aguentar o tímido sol.
É cinza a dor. Não a mistura do branco e do negro, mas da desistência, quando as tintas todas, cansadas da luz, escondem-se na paleta num tom único e sem brilho. Inútil tentar seu uso. Este cinza não cabe no ocaso da paisagem, nem nos telhados do casario assombreado. É o cinza único daqueles que partiram. É cor de dentro, das profundezas da alma daqueles que se deixaram vencer.
Há em mim, a saudade nascente dos que acabaram de partir, pois tenho a certeza da volta. Há em mim o sentimento de água pura, pois dos meus haustos aos teus, nenhuma areia se desprendeu. Há ainda a solidez das palavras que uma a uma, tornaram caudaloso o veio primeiro. Há por fim essa dor contrariada que o desentendimento provocou, óleo e água, sem possível diluição.
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